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Granja do Ulmeiro: Há uma mercearia onde se troca o que se tem a mais pelo que se precisa
Não usam dinheiro, mas acedem a bens e serviços trocando-os, cada um oferecendo aquilo que pode dispensar. É esta a lógica da Mercearia Solidária criada no concelho de Soure, e que já mobilizou a população.

Implantada na freguesia rural de Granja do Ulmeiro, dá sequência aos mercados solidários que desde 2006 a AJPaz - Acção para a Justiça e Paz, sazonalmente, promove no concelho de Soure.

Inaugurada no passado dia 20 de fevereiro, ao fim de uma semana já tinha registadas 26 “prossumidores”, a designação atribuída a quem é simultaneamente produtora e consumidora.

Não há dinheiro oficial a mediar as trocas dos produtos, mas uma moeda social, as “Granjas”, que serve de referencial para a valorização dos produtos e serviços. Os livros que existiam nas antigas mercearias, onde se fiava, são ali substituídos por uma ficha individual, onde se regista o que cada uma, ou cada um, traz e leva.

Ana Leão, coordenadora da Mercearia Solidária, contou à agência Lusa que o projeto surgiu da necessidade de um espaço físico que possibilitasse trocas diárias de serviços e produtos - nomeadamente endógenos - por outros de que as pessoas precisassem.

Alguns dos produtos que o meio local não gera são conseguidos através de doações de supermercados e de particulares.

Embora ainda com uma dimensão modesta, na Mercearia Solidária que a AJPaz criou na sua sede, na Granja do Ulmeiro, encontram-se produtos da terra, os legumes e frutas da época, mas também roupas, carteiras, calçado, perfumes, livros, mercearias, brinquedos, artesanato, produtos de limpeza e material escolar, entre outros.

Aurélia Castanheira, Júlia Rente e Salete Senhor, todas elas “prossumidoras”, consideram o projeto “muito bom”, “pioneiro”, “inovador”, e uma forma de “não ir ao supermercado”. Acreditam que gradualmente a oferta de produtos se ampliará com o aumento das aderentes.

“Há pessoas que são dotadas para fazer bolos, sobremesas, rissóis. É uma maneira. Levam o que houver, laranja, limão, tangerina, carqueja, louro. Eu trouxe roupas e carteiras que já quase não usava, e levei manteiga de amendoim, kiwi”. E pisquei o olhinho a um casaquinho que estava ali e levei-o, e fez um sucesso!”, contou Aurélia Castanheira.

Como não possuem terrenos agrícolas, Júlia Rente e Salete Senhor vão levando dali hortícolas, frutas e mercearia. A primeira, como tem um “generoso” limoeiro no quintal, oferece limões. A segunda tem jeito para artesanato e croché, e disponibiliza as peças que faz.

“Não estamos a dar um caráter meramente assistencialista, mas permitir às pessoas trazer os seus valores, saberes e competências”, explicou Joana Pombo, dirigente da AJPaz, acrescentando que o projeto está enquadrado na rede social do concelho de Soure, em concertação com a Câmara Municipal e IPSS’s.

A Mercearia Solidária articula-se, e é complementar, a outros dos espaços, que são a “Lojita da Pessoa Cidadã” - onde se ajuda a encontrar emprego, a fazer formação, e se encaminham os casos para instituições públicas e privadas parceiras -, e o “Centro de Convívio para o Bem Comum”, que é espaço de realização de oficinas sobre diversas temáticas.

“A nossa intenção é articular o projeto com as outras freguesias do concelho de Soure, tal como fizemos com os mercados solidários. Quem sabe se no futuro não surgirão mais lojitas da pessoa cidadã, e mais mercearias solidárias”, concluiu Joana Pombo.

08-03-201010
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